Pouco se sabe sobre o homem chamado Homero. Sobre os seus poemas, sabe-se muito mais. Há mais de dois milénios que A Ilíada e A Odisseia continuam a ser lidas, traduzidas, discutidas e reinventadas, mesmo quando quem as lê nunca chegou às páginas originais.
É nesse paradoxo que Alberto Manguel encontra a matéria para A Ilíada e a Odisseia de Homero — Uma Biografia, agora publicada em Portugal pela Tinta da China numa edição revista e aumentada, com tradução de Rita Almeida Simões.
O título pode parecer uma provocação. Como se escreve a biografia de um livro? E como se escreve a biografia de dois poemas quando a própria existência do seu autor permanece envolta em dúvida?
Manguel não tenta resolver o mistério. Faz algo mais interessante: segue as marcas que Homero deixou na literatura e observa o que aconteceu às suas histórias depois de saírem da Antiguidade.
O autor é uma sombra. Os poemas ficaram
A distância em relação a Homero é enorme. A distância em relação às suas histórias, não.
O cavalo de Tróia, Helena, Aquiles, Ulisses, Penélope, as sereias e os ciclopes fazem parte de uma memória cultural que ultrapassou há muito os limites da literatura clássica. Muitas destas imagens tornaram-se familiares até para quem nunca leu A Ilíada ou A Odisseia. A própria apresentação da edição portuguesa parte dessa ideia: os poemas continuam a ser permanentemente reinventados e reconhecidos na cultura popular ocidental.
É aqui que a palavra “biografia” ganha outro sentido.
Manguel não procura reconstruir uma vida humana que permanece difícil de conhecer. Procura reconstruir a vida de duas obras. Uma vida feita de traduções, leituras, interpretações, adaptações e respostas.
Os poemas tornam-se, assim, uma espécie de mapa subterrâneo da literatura ocidental.
Ler Homero depois de Homero
Manguel conhece bem esse território. A sua obra está profundamente ligada à leitura e à relação entre leitores e livros. Foi leitor de Jorge Luis Borges durante os anos 1960 e escreveu alguns dos mais conhecidos ensaios contemporâneos sobre leitura, bibliotecas e literatura. Foi também director da Biblioteca Nacional da Argentina entre 2015 e 2018.
Por isso, o seu encontro com Homero não é apenas o de um escritor com dois clássicos.
É o encontro de um leitor com uma cadeia de leitores.
A pergunta deixa de ser apenas “o que quis Homero dizer?” e passa a ser “o que fizeram os leitores com aquilo que Homero deixou?”.
Essa mudança é fundamental. Porque nenhum clássico permanece exactamente igual depois de atravessar séculos de leitura. Cada tradução escolhe palavras diferentes. Cada época encontra problemas diferentes. Cada escritor reconhece nos mesmos versos aquilo que o seu próprio tempo lhe permite reconhecer.
Manguel interessa-se por esse movimento.
De Homero nasceram outros livros
A viagem não termina na Grécia antiga.
A edição portuguesa apresenta o livro como uma procura pelas marcas deixadas por Homero desde a Antiguidade até aos nossos dias, acompanhando os livros e filmes que nasceram desse diálogo, num percurso que vai de Dublin a Bagdade.
A edição internacional descreve igualmente uma linhagem que atravessa nomes como Platão, Virgílio, Dante, Pope, Joyce e Margaret Atwood.
É nesse ponto que a proposta de Manguel ganha dimensão.
A Ilíada e A Odisseia deixam de ser apenas obras que devemos respeitar por serem antigas. Tornam-se livros que continuam a produzir outros livros.
A guerra de Tróia já não pertence apenas a Tróia. A viagem de Ulisses já não pertence apenas ao Mediterrâneo. As figuras criadas ou preservadas por Homero foram sendo deslocadas para outros tempos, outras línguas e outras perguntas.
Um clássico sobrevive menos pela idade do que pela capacidade de ser novamente interrogado.
A verdadeira biografia é a dos leitores
Talvez seja esta a maior inteligência do livro de Manguel.
Uma obra literária não termina quando o autor coloca o ponto final. Começa aí uma outra existência, feita por quem a lê.
A Ilíada e A Odisseia sobreviveram porque cada geração encontrou nelas qualquer coisa que lhe dizia respeito. Não necessariamente a mesma coisa. E é precisamente essa diferença que mantém os poemas em movimento.
Manguel resume essa relação de forma particularmente feliz ao afirmar que ninguém é dono de Homero, porque cada leitura atravessa as camadas das leituras que vieram antes.
É uma ideia que ultrapassa Homero.
Também explica porque é que alguns livros atravessam séculos enquanto outros desaparecem.
No fim, A Ilíada e a Odisseia de Homero — Uma Biografia não é apenas uma viagem pela literatura clássica. É uma reflexão sobre aquilo que acontece a um livro quando deixa de pertencer ao seu tempo.
Homero pode continuar a ser uma sombra.
Os poemas, esses, continuam a encontrar leitores.
