Marina Mole não está simplesmente a lançar outro videoclipe. Em “Slowdancing”, o segundo avanço de Azucrim, a artista brasileira pega na personagem que apresentou em “Luneta Azul” e coloca-a num lugar bem menos confortável.
O anjo Azucrim já experimentou a paixão. Agora conhece a desilusão, a confusão e aquilo que existe quando as fantasias sobre o amor encontram a realidade.
Filmado a preto e branco no centro de São Paulo, o novo vídeo realizado por Cauê Dias Baptista acompanha essa mudança. A cidade substitui o espaço mais imaginário do primeiro capítulo. O anjo deixa de olhar para a experiência humana com curiosidade e começa finalmente a senti-la no corpo.
É uma mudança pequena na história, mas importante para perceber o que Marina Mole está a construir em Azucrim.
O anjo já descobriu que o amor não chega
Em “Luneta Azul”, Azucrim chegava à Terra para experimentar a paixão. A personagem tinha ainda qualquer coisa de visitante, alguém que observa os humanos e tenta perceber aquilo que os move.
“Slowdancing” começa depois dessa experiência.
Marina descreve o momento como aquele em que o anjo já “andou demais” e foi confrontado com as fantasias humanas de amor. A frase diz bastante sobre a personagem e também sobre a mudança visual do projeto. O encantamento começa a desaparecer.
Por isso, São Paulo faz sentido.
A cidade não aparece apenas como cenário. É o lugar onde Azucrim deixa de ser uma figura distante e passa a estar misturado com pessoas, ruas, corpos e emoções que não consegue controlar. O anjo ganhou chão. E o chão é bastante mais complicado do que aquilo que imaginava.
A fotografia a preto e branco de Gabriel Hultazo reforça essa sensação. Retira cor ao romantismo e deixa espaço para os rostos, os movimentos e os contrastes. O vídeo ganha uma aparência quase documental, mas mantém uma personagem que continua a viver entre dois mundos.
São Paulo transforma-se numa personagem
A realização de Cauê Dias Baptista, com assistência de realização, fotografia e montagem de Gabriel Hultazo, evita transformar “Slowdancing” num simples exercício de ilustração da música.
Marina assina a conceção e o roteiro e percebe-se que existe uma vontade de continuar a desenvolver Azucrim também através da imagem. O álbum começa a ganhar uma linguagem própria. Não apenas uma sequência de canções, mas um pequeno universo onde cada peça acrescenta alguma coisa à anterior.
A escolha do centro de São Paulo é particularmente feliz nesse sentido.
É uma cidade demasiado grande para permitir que alguém permaneça completamente isolado. Tudo acontece ao mesmo tempo. Pessoas, ruído, movimento, encontros rápidos, tensão, desejo. Para uma personagem que veio à Terra tentar perceber os humanos, dificilmente existiria laboratório melhor.
E o vídeo aproveita essa matéria.
Azucrim já não está a olhar para o amor de fora. Está no meio dele, das suas contradições e dos seus acidentes.
Uma rede da música independente brasileira entra em cena
O elenco também merece atenção porque diz bastante sobre o lugar que Marina Mole ocupa na cena alternativa brasileira.
Ana Zumpano e Lê Almeida, dos Oruã, juntam-se a Carol Acaiah, Fernando Paludo e Jivago Del Claro, dos Tutu Naná. Participam ainda Eduardo Possa, da Exclusive Os Cabides, Marília Toledo, ligada ao CACO/CONCHA, e Marina Cananda, da Radio Color.
A lista continua com os poetas Guilherme Ziggy e Leonardo Chagas, que também contribuíram para a letra de “Slowdancing”, e com Andréa Lasevicius, João Xiuxiu, Julia Regina, Lua Moraes, Marcelo Wbk e Mariana Emmerich.
Mais do que uma coleção de convidados, esta gente funciona como um retrato da rede que existe à volta da artista.
Marina diz que convidar estas pessoas é especial porque reafirma o percurso que a própria música retrata. E talvez seja precisamente aí que o videoclipe ganha outra dimensão. Uma canção sobre experiências humanas é construída visualmente através de uma comunidade real de pessoas que partilham caminhos dentro da música, da poesia, do cinema e das artes.
O elenco não está ali apenas para preencher o enquadramento. Faz parte da história.
“Slowdancing” é mais uma peça de Azucrim
Também vale a pena voltar à canção, porque o universo visual só funciona se existir uma música capaz de o sustentar.
Marina Mole assume voz, guitarra, composição e parte da letra, escrita em conjunto com Guilherme Ziggy e Leonardo Chagas. Vitor Wutzki toca guitarra e faz backing vocals, Lucas Monch toca baixo e cleozinhu fica responsável pela bateria e pelos coros.
A gravação foi feita em fita magnética de bobina por Beeau Gomez, no Estúdio Memoria, uma opção que atravessa todo o álbum e ajuda a enquadrar Azucrim dentro de uma estética ligada ao rock independente, entre o punk, o surf e o garage.
O percurso de Marina também ajuda a perceber de onde vem esta mistura. Artista multifacetada, ligada à música, ao jornalismo, às artes visuais e ao vídeo, passou dois anos em Portugal, entre 2022 e 2024, período em que compôs muitos dos temas que agora chegam ao novo disco.
Azucrim tem lançamento previsto para setembro. “Luneta Azul” abriu a porta. “Slowdancing” empurra-a mais para dentro.
O mais interessante é perceber que Marina não parece estar interessada em explicar completamente quem é Azucrim. Prefere deixá-lo andar, errar, apaixonar-se, desiludir-se e encontrar-se no meio da cidade.
Talvez seja essa a verdadeira viagem do disco.
O anjo veio à Terra para perceber os humanos. Agora já percebeu que ninguém lhe vai facilitar o trabalho.
E São Paulo também não.
