Sábado, 8 de Agosto de 2026
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Marina Mole leva o anjo Azucrim para o caos de São Paulo em “Slowdancing”

Por Jorge Silva Medeiros 8 Ago 2026

Marina Mole não está simplesmente a lançar outro videoclipe. Em “Slowdancing”, o segundo avanço de Azucrim, a artista brasileira pega na personagem que apresentou em “Luneta Azul” e coloca-a num lugar bem menos confortável.

 

 

O anjo Azucrim já experimentou a paixão. Agora conhece a desilusão, a confusão e aquilo que existe quando as fantasias sobre o amor encontram a realidade.

Filmado a preto e branco no centro de São Paulo, o novo vídeo realizado por Cauê Dias Baptista acompanha essa mudança. A cidade substitui o espaço mais imaginário do primeiro capítulo. O anjo deixa de olhar para a experiência humana com curiosidade e começa finalmente a senti-la no corpo.

É uma mudança pequena na história, mas importante para perceber o que Marina Mole está a construir em Azucrim.

O anjo já descobriu que o amor não chega

Em “Luneta Azul”, Azucrim chegava à Terra para experimentar a paixão. A personagem tinha ainda qualquer coisa de visitante, alguém que observa os humanos e tenta perceber aquilo que os move.

“Slowdancing” começa depois dessa experiência.

Marina descreve o momento como aquele em que o anjo já “andou demais” e foi confrontado com as fantasias humanas de amor. A frase diz bastante sobre a personagem e também sobre a mudança visual do projeto. O encantamento começa a desaparecer.

Por isso, São Paulo faz sentido.

A cidade não aparece apenas como cenário. É o lugar onde Azucrim deixa de ser uma figura distante e passa a estar misturado com pessoas, ruas, corpos e emoções que não consegue controlar. O anjo ganhou chão. E o chão é bastante mais complicado do que aquilo que imaginava.

A fotografia a preto e branco de Gabriel Hultazo reforça essa sensação. Retira cor ao romantismo e deixa espaço para os rostos, os movimentos e os contrastes. O vídeo ganha uma aparência quase documental, mas mantém uma personagem que continua a viver entre dois mundos.

São Paulo transforma-se numa personagem

A realização de Cauê Dias Baptista, com assistência de realização, fotografia e montagem de Gabriel Hultazo, evita transformar “Slowdancing” num simples exercício de ilustração da música.

Marina assina a conceção e o roteiro e percebe-se que existe uma vontade de continuar a desenvolver Azucrim também através da imagem. O álbum começa a ganhar uma linguagem própria. Não apenas uma sequência de canções, mas um pequeno universo onde cada peça acrescenta alguma coisa à anterior.

A escolha do centro de São Paulo é particularmente feliz nesse sentido.

É uma cidade demasiado grande para permitir que alguém permaneça completamente isolado. Tudo acontece ao mesmo tempo. Pessoas, ruído, movimento, encontros rápidos, tensão, desejo. Para uma personagem que veio à Terra tentar perceber os humanos, dificilmente existiria laboratório melhor.

E o vídeo aproveita essa matéria.

Azucrim já não está a olhar para o amor de fora. Está no meio dele, das suas contradições e dos seus acidentes.

Uma rede da música independente brasileira entra em cena

O elenco também merece atenção porque diz bastante sobre o lugar que Marina Mole ocupa na cena alternativa brasileira.

Ana Zumpano e Lê Almeida, dos Oruã, juntam-se a Carol Acaiah, Fernando Paludo e Jivago Del Claro, dos Tutu Naná. Participam ainda Eduardo Possa, da Exclusive Os Cabides, Marília Toledo, ligada ao CACO/CONCHA, e Marina Cananda, da Radio Color.

A lista continua com os poetas Guilherme Ziggy e Leonardo Chagas, que também contribuíram para a letra de “Slowdancing”, e com Andréa Lasevicius, João Xiuxiu, Julia Regina, Lua Moraes, Marcelo Wbk e Mariana Emmerich.

Mais do que uma coleção de convidados, esta gente funciona como um retrato da rede que existe à volta da artista.

Marina diz que convidar estas pessoas é especial porque reafirma o percurso que a própria música retrata. E talvez seja precisamente aí que o videoclipe ganha outra dimensão. Uma canção sobre experiências humanas é construída visualmente através de uma comunidade real de pessoas que partilham caminhos dentro da música, da poesia, do cinema e das artes.

O elenco não está ali apenas para preencher o enquadramento. Faz parte da história.

“Slowdancing” é mais uma peça de Azucrim

Também vale a pena voltar à canção, porque o universo visual só funciona se existir uma música capaz de o sustentar.

Marina Mole assume voz, guitarra, composição e parte da letra, escrita em conjunto com Guilherme Ziggy e Leonardo Chagas. Vitor Wutzki toca guitarra e faz backing vocals, Lucas Monch toca baixo e cleozinhu fica responsável pela bateria e pelos coros.

A gravação foi feita em fita magnética de bobina por Beeau Gomez, no Estúdio Memoria, uma opção que atravessa todo o álbum e ajuda a enquadrar Azucrim dentro de uma estética ligada ao rock independente, entre o punk, o surf e o garage.

O percurso de Marina também ajuda a perceber de onde vem esta mistura. Artista multifacetada, ligada à música, ao jornalismo, às artes visuais e ao vídeo, passou dois anos em Portugal, entre 2022 e 2024, período em que compôs muitos dos temas que agora chegam ao novo disco.

Azucrim tem lançamento previsto para setembro. “Luneta Azul” abriu a porta. “Slowdancing” empurra-a mais para dentro.

O mais interessante é perceber que Marina não parece estar interessada em explicar completamente quem é Azucrim. Prefere deixá-lo andar, errar, apaixonar-se, desiludir-se e encontrar-se no meio da cidade.

Talvez seja essa a verdadeira viagem do disco.

O anjo veio à Terra para perceber os humanos. Agora já percebeu que ninguém lhe vai facilitar o trabalho.

E São Paulo também não.

 

Jorge Silva Medeiros

Jorge Silva Medeiros é técnico de som na RTP e fundador do Música Total, um dos projetos editoriais dedicados à música com maior longevidade em Portugal, dentro da plataformas. Ligado ao setor da comunicação e da música há mais de duas décadas, criou também a Rádio Atlântida e tem desenvolvido um trabalho contínuo na divulgação da música portuguesa, dos artistas emergentes e dos grandes eventos culturais, assim como produção de eventos.

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