Depois de tantos discos e anos de estrada, há uma pergunta que continua a fazer sentido: porque continuar a escrever novas canções quando já existe um repertório capaz de contar uma carreira inteira?
Para os Passos Pesados, a resposta não está numa estratégia nem na necessidade de repetir o passado. Está na vontade de continuar a criar. Ou, como explica Toni Pimentel, numa necessidade que, por vezes, se aproxima de «quase um vício».
«Ainda te lembras» nasce desse impulso. O novo álbum recupera memórias, observa o presente e junta dez canções criadas com a intenção de fazer parte do mesmo percurso.
Nesta entrevista ao Música Total, Toni Pimentel fala sobre a origem do disco, a escrita em português, a criação das canções, o trabalho da banda e a expectativa de apresentar o novo repertório ao público açoriano.
Porque, depois de tantos anos, os Passos Pesados ainda têm canções para dizer.
Depois de tantos discos, o que vos levou a continuar a escrever e gravar novas canções em vez de viver apenas do repertório já construído?
Porque está em nós a vontade, a necessidade, quase o vício de criar, de expressar o que sentimos no momento e de comentar, através das canções, o que se passa à nossa volta e no mundo em que vivemos. Existe também a vontade de experimentar novos momentos musicais.
O que significa “Ainda te lembras” para os Passos Pesados? A pergunta do título nasceu de uma experiência concreta ou foi ganhando significado durante a criação do disco?
Nasceu de uma experiência concreta, da lembrança do passado, mais concretamente da minha infância, junto de um amigo de longa data. Foi uma memória que transformei em canção. No entanto, essa canção acabou por dar o nome ao álbum, por ser uma pergunta que pode abranger várias pessoas e vários momentos da nossa caminhada.
Em que momento perceberam que estas dez canções pertenciam ao mesmo álbum?
Digamos que foi um trabalho concebido nesse sentido. As canções foram surgindo e sendo gravadas com essa intenção.
Toni Pimentel assina as letras, as músicas e a produção. Como foi assumir um papel tão central neste disco e onde começa o espaço criativo dos restantes elementos da banda?
É um modelo que já se repete há muitos anos e que, para já, é para manter. É sempre um desafio superar-me a mim próprio, mas, como se diz na gíria, «é o que temos e o que é possível». Quanto à criatividade dos restantes elementos, surge sobretudo na parte da instrumentação e dos solos.
O que mudou na forma como escreves rock em português desde os primeiros discos dos Passos Pesados até Ainda te lembras?
É evidente que a forma de escrever evoluiu, assim como o cuidado com a escrita e a forma como os temas são abordados e retratados musicalmente, de modo a que se tornem mais apetecíveis aos ouvidos dos nossos seguidores e do público em geral. Isso pode ser um fator importantíssimo na captação, ou não, de novos fãs.
O comunicado descreve o álbum como robusto e denso. O que devem os ouvintes procurar nestas novas canções que talvez não estivesse tão presente nos discos anteriores?
O álbum contém temas que nos transportam para alguns alertas através das canções, como «O Crime» e «Animais», abordando, entre outras questões, a forma como os tratamos. Tudo isto surge numa sonoridade densa de sentimento, mas muito crua no que respeita a efeitos, transportando-nos para a verdade e para a realidade da nossa sociedade.
Cada disco que gravamos tem a sua história e o seu propósito. Torna-se difícil fazer comparações.
Gravar nos estúdios Tocasom teve alguma influência particular no som final do álbum?
Gravar nos estúdios Tocasom tem uma particularidade: não estamos constantemente a olhar para o relógio, com a pressa de ter de acabar este ou aquele tema. Podemos criar descansados e sem o stress de termos um determinado dia e hora para gravar.
Em relação à sonoridade final do álbum, é evidente que tem esta marca. É uma opção nossa e uma prática que já está presente na maior parte dos nossos trabalhos.
Existe uma canção em Ainda te lembras que represente melhor o momento atual dos Passos Pesados? Porquê?
Penso que este trabalho tem quatro temas muito fortes: «Foi na Queima», «Devia Ser Domingo», «Dá-me um Beijo» e «Ainda te Lembras». Este último acaba por ser uma pergunta que transporta todos os que nos ouvem para a sua infância e para as histórias que viveram nesses tempos, através da suavidade e simplicidade da música, que nos convida a viver e a recordar.
Alguns dos novos temas serão tocados pela primeira vez em palco no Casino Azores. Há canções que acreditam que só vão ganhar a sua verdadeira dimensão ao vivo?
Sem dúvida. Estamos com grande curiosidade para ver como serão recebidos pelo público os temas «Devia Ser Domingo» e «Dá-me um Beijo».
Depois de tantos anos de carreira, ainda existe nervosismo quando apresentam material novo a um público que já conhece tão bem a banda?
Certamente que sim. Cada momento é único. Se não houvesse nervosismo, queria dizer que a preocupação com o público já não existia, o que seria um mau presságio.
O que significa para vocês apresentar este álbum em Ponta Delgada e que importância tem tocar este novo repertório perante o público açoriano?
É sempre uma sensação especial apresentarmos algo de nós, algo que pode ser bem ou mal recebido. Existe essa sensação de expectativa, mas é algo de que gostamos muito.
Tocar para quem nos segue há muito tempo é sempre uma espécie de recompensa pelo nosso trabalho.
Se daqui a alguns anos alguém voltar a perguntar “Ainda te lembras?”, o que gostariam que tivesse ficado na memória deste álbum?
Que este foi um trabalho que fizemos talvez na melhor fase musical da nossa carreira e que as mensagens que as músicas transmitem foram assimiladas por quem as ouviu.
Ler: Passos Pesados lançam Ainda te lembras, o 12.º álbum
